Por Fernando Almeida
Enquanto o embate de forças no campo ideológico discute a possibilidade do problema dos moradores de rua em Araguaína ser solucionado ou não, uma coisa é certa: eles ainda continuam dormindo ao relento. O abrigo pode sair? Se tudo ocorrer conforme o anunciado, a casa de passagem pode se tornar uma realidade. Sobre isto talvez não haja mais dúvidas.
Com o abrigo o problema, de fato, será resolvido? Afirmar que sim, seria o mais prudente, diante das evidências; porém implicaria em ignorar questões complexas, históricas, psicológicas e mais profundas. Dizer que não, poderia ser interpretado como pessimismo ou entendido como atitude de desprezo quanto às medidas tomadas, até então. É um tema complexo, que exige discussões amplas, para se obter uma possível resposta plausível.
Ao observar o projeto idealizado, pode se pensar que atende realmente todas as necessidades dos moradores de rua, disponibilizando o abrigo físico, a alimentação, dinâmicas de trabalho e apoio psicológico. Diante dos elementos apresentados, poderíamos dizer que o referido problema seria, de fato, resolvido, ou seja, os mendigos sairiam do centro de Araguaína e passariam a ter uma moradia. Nesse sentido as possibilidades são maiores, pois a solução é menos complexa.
Retirar os moradores das ruas e colocá-los dentro de uma casa é uma solução ideal? Para uma sociedade dominada pelos valores do capitalismo, esta é a saída mais viável; pois os comerciantes, os visitantes e o poder público se livram do incômodo causado pelo “lixo” social. Nesta condição o problema da sociedade pode até ser resolvido, porém, para os mendigos não, pois muda apenas de local e de dimensão.
Uma solução viável para os moradores de rua está além de um abrigo, de comida, vestimentas, apoio psicológico ou a tentativa de reinserção dos mesmos à sociedade. É na verdade uma solução mais complexa do que imaginamos, que exige a ação de toda a comunidade, trabalhando em prol deste benefício.
Embora todos saibam que resolver o problemas dos moradores de rua em Araguaína, ou em qualquer outro lugar, a responsabilidade é do poder público, porém se faz necessário lembrar que toda a sociedade é responsável e deve fazer sua parte. Cada pessoa, como parte constituinte dos grupos sociais têm o dever de contribuir e trabalhar para o bem comum de todos.
Durante todo o tempo, muitos jogaram a responsabilidade somente para o poder público, mas onde estão as igrejas católicas, evangélicas e os defensores dos direitos humanos?
Nesse sentido os evangélicos e católicos foram omissos, hipócritas e não demonstraram o amor verdadeiro, assim como pregam nas igrejas. Sem medo de errar, com base nos fatos citados, podemos afirmar que o discurso é um e a prática é outra, pois o amor ao próximo fiou somente em palavras, ou como diria Tiago, uma fé morta. Além disso, podemos destacar que a igreja possui riquezas, mas dentre tantas aqui de Araguaína, nenhuma se prontificou a resolver o problema. Uma demonstração de que até as igrejas foram indiferentes ao problema.
Quando algum preso muito perigoso está correndo risco, sempre aparece na televisão alguém dos direitos humanos dizendo que o estado deve garantir os direitos constitucionais, a estas pessoas. Mas, ao que me parece, ninguém dos direitos humanos exigiu que os direitos garantidos pela constituição fossem assegurados aos moradores de rua em Araguaína. O que aconteceu? Temos de fato direitos humanos? Ou apenas no papel e no discurso?
Mas voltando a discutir a possível solução, agora com um olhar mais aguçado sobre as implicações e reflexões provocadas na discussão do tema, podemos pensar que a solução está mais distante do de imaginávamos. Quando refiro à mudança, não estou falando de simplesmente colocar os moradores de rua dentro de uma casa, com comida e outras coisas, mas, de uma solução definitiva para eles e a reinserção dos mesmos à sociedade.
Um problema discutido na Alemanha desde o século XIX, quando Georg Simmel estudava o crescimento e o desenvolvimento das cidades, destacando que o aglomerado de pessoas provocava o que os termos denominam atitude blasé, quando o ser humano simplesmente ignora o semelhante, uma atitude de auto defesa para se proteger dentro dos grupos sociais. Conforme (SIMMEL 2004) define:
“é a incapacidade de reagir a novos estímulos com as energias adequadas (…) que associada à economia monetária, a essência da atitude blasé encontra-se na indiferença perante as distinções entre as coisas (…) não são percepcionadas como significantes” (SIMMEL 2004, pág. 35)
Em outros termos, Simmel está dizendo que o ser humano se torna incapaz de ter sensibilidade em relação ao sofrimento do outro. Dentro desse contexto percebemos o quando é difícil resolver os problemas das pessoas excluídas da sociedade. Exige mais que vontade política, recursos financeiros, pedagógicos ou apoio psicológico. Tal possibilidade de solução é um esforço conjunto de toda a sociedade que precisa rever muitos conceitos e viver a essência e não apenas a aparência.
A solução não é apenas um projeto, um discurso ou um sonho, mas implica em ter um trabalho que envolve além do poder público, as igrejas católicas e evangélicas, que, aliás, precisam rever os conceitos; também não podemos deixar de fora as entidades sociais e todos os segmentos públicos ou civis, que formam a sociedade. Todos unidos em prol do bem estar da comunidade, valorizando a essência humana, respeitando às diferenças e somando forças na construção de um mundo melhor.
Com embasamento em todas as discussões levantadas sobre os moradores de rua em Araguaína, podemos dizer que uma solução verdadeira existe, porém é algo mais complexo do que aquilo que a princípio imaginamos. Apesar de tantas hipóteses levantadas e discutidas com profundidade, podemos concluir não com uma resposta, mas com reflexão filosófica provocada pela antítese do título do artigo: Moradores de rua: um problema que parece (não) ter solução.
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